O projeto Barcos do Brasil, lançado oficialmente pelo Iphan e parceiros em 2008, representa um grande avanço institucional no que se refere à preservação e à valorização do patrimônio naval brasileiro. Sua origem, entretanto, nos remete a ações pioneiras bem anteriores. Ainda no final do século XIX, o então Almirante Alves Câmara encomendou aos estados brasileiros que reproduzissem réplicas das suas embarcações tradicionais. A solicitação derivava da constatação do próprio Almirante da diversidade e riqueza do patrimônio naval brasileiro e, ao mesmo tempo, do seu iminente risco de desaparecimento em função da modernização dos meios de transporte e de novas modalidades de escoamento de produção das diversas regiões. A construção de ferrovias e, na seqüência, das rodovias, definiu, em vários casos, o paulatino desaparecimento de embarcações tradicionais em todo o Brasil.

A iniciativa de Alves Câmara foi certamente inspirada pela experiência do almirante francês François-Edmond Pâris (1806-1893), que cruzou os mares do mundo entre 1826 e 1840, documentando e depois reproduzindo, em escala, embarcações tradicionais da Arábia, Índia, África, Oceania, Ásia, Américas e Europa, experiência até hoje sem precedentes para o estudo e a preservação dos conhecimentos relacionados com as embarcações tradicionais do mundo. Ao pioneirismo de Alves Câmara seguiram-se outras iniciativas, no contexto brasileiro, dentre as quais se destacam os estudos do folclorista potiguar Câmara Cascudo, que elaborou importante estudo sobre as jangadas do nordeste, tendo como base o Rio Grande do Norte; de Theodor Selling Jr. que viveu na Bahia entre as décadas de 1940 e 1950 e desenvolveu apurada pesquisa sobre os saveiros e outras embarcações tradicionais ; do engenheiro Paulo Pardal, pesquisador das carrancas do São Francisco, muitas das quais adquiriu, salvando do desaparecimento, e a partir das quais editou a publicação “Carrancas do São Francisco”, até hoje a principal referência sobre as carrancas; do modelista Kelvin Paumier Duarte, pesquisador e responsável, na década de 1980, pela restauração da Coleção Alves Câmara, também sob a guarda da Marinha Brasileira no Rio de Janeiro; do Almirante Max Justo Guedes, especialista em Cartografia Histórica e História Naval Brasileira, responsável pela reabertura do Museu Naval, no Rio de Janeiro, que estimulou pesquisas, editou obras e apoiou estudiosos das embarcações tradicionais; do arquiteto e navegador Lev Smarcevski, responsável por estudo primoroso sobre os saveiros da Bahia e a utilização do graminho na construção naval; Pedro Agostinho, que também se dedicou ao estudo das embarcações tradicionais do Recôncavo Baiano.

Inspirados pelos esforços realizados pelos pioneiros, outros apaixonados e estudiosos dedicaram parcela expressiva do seu tempo de trabalho para aprofundar o conhecimento sobre o patrimônio naval brasileiro e desenvolver ações de preservação. Neste contexto, destaca-se a atuação e dedicação de Nearco Araújo, arquiteto e professor amazonense dedicado aos estudos sobre a jangada cearense, fato que lhe rendeu o título de cidadão cearense, concedido pelo governo daquele estado; de Luiz Phelipe Andrès, pesquisador das embarcações maranhenses, autor do livro Embarcações do Maranhão, criador e atual diretor do Estaleiro Escola do Maranhão; de Luiz Lauro Pereira Jr., modelista e autor de estudos e pesquisas sobre diversas embarcações brasileiras, que em conjunto com Carlos Heitos Chaves e Conny Baumgart, trabalha na reprodução da coleção Alves Câmara, em escala 1:25, para o Museu Nacional do Mar; além do botânico e do engenheiro naval Armando Luiz Gonzaga, que foi durante anos chefe do estaleiro naval da Marinha, trazendo sempre grandes contribuições à preservação do patrimônio naval brasileiro. São também importantes e expressivas as contribuições do Vice-Almirante e Engenheiro Naval, Armando de Senna Bittencourt, diretor do Patrimônio Histórico e Cultural da Marinha; de Lauro Barcellos, diretor do Museu Náutico de Rio Grande, que pesquisou, resgatou e restaurou as canoas de pranchão do Rio Grande do Sul; de Carlos Eduardo Ribeiro, presidente da Associação Canoa de Tolda do Rio São Francisco, que adquiriu, restaurou e mantém em atividade a canoa de tolda Lusitânia; de Pedro Bocca e demais sócios da Associação Viva Saveiro da Bahia que desenvolvem o trabalho comunitário mais importante do Brasil na preservação e valorização do patrimônio naval baiano, especialmente dos saveiros; de Edson Fogaça, técnico da Representação da UNESCO no Brasil e mentor do projeto Embarcações Brasileiras, que vem produzindo documentários sobre as embarcações tradicionais na atualidade; João Lara Mesquita, que através do projeto Mar sem Fim documentou toda a costa brasileira e editou publicação, incluindo barcos e paisagens tradicionais do litoral; de Joel Pacheco, que estudou e acaba de publicar um livro sobre as baleerias de Santa Catarina; de Amyr Klink, navegador, estudioso e defensor das embarcações tradicionais – sócio emérito da Associação de Amigos do Museu Nacional do Mar e, finalmente, de Dalmo Vieira Filho, organizador dos três seminários nacionais sobre o patrimônio naval, mentor e fundador do Museu Nacional do Mar em São Francisco do Sul e idealizador do Projeto Barcos do Brasil.

O projeto é, portanto, resultado do esforço que vem sendo empreendido, em diversas épocas e nas diversas regiões brasileiras, por estudiosos e amantes das “coisas do mar”. O alinhamento entre os diversos atores e parceiros deve ser objetivo a ser perseguido nos próximos anos, com vistas à proteção e à valorização do patrimônio naval brasileiro que ainda permanece preservado nos mais variados contextos geográficos, econômicos, sociais e culturais do Brasil.

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